domingo, 21 de outubro de 2007

Um não lugar para formar

No início desta semana estava pensando em um título para a minha dissertação de mestrado. Um título que abrangesse aspectos relacionados com a formação docente, assim como com a temática inclusão digital.
Então pensei no seguinte título: Um [não] lugar para a formação docente.
Mas tudo isso porque fui influenciada pelo livro Cibercultura e O que é o Virtual, de Pierre Lévy; e ainda pelo livro Globalização: as conseqüências humanas, de Zygmunt Bauman.
Em ambos os livros a questão do ciberespaço é invocada e articulada. Bauman, não conceitua nem define (provavelmente pelo seu caráter pós-moderno), mas articula de forma sociológica. Lévy, define e conceitua de forma filosófica.
No entanto, me deparei com dúvidas e incertezas conceituais. Confusões que me pararam e fizeram-me pensar no Ciberespaço e no Virtual. Mais especificamente, fizeram-me pensar nas diferenças entre o Ciberespaço e o Virtual. E existem diferenças?
Afinal eu, como tutora, (a)onde trabalho? E falo (a)onde propositadamente. Qual é o meu [nã0] lugar profissional, o meu espaço?
Para mim, ciberespaço e virtual significavam exatamente a mesma coisa. Mas, depois de ler Lévy, tudo mudou, tudo se confundiu. Noções (conceitos) que eu tinha como “certo”, desconstruiram-se.
Atualmente estou em desequilíbrio. Minha hipótese inicial de que Virtual é igual à Ciberespaço, foi negada.
Para explicar um pouco melhor, “em filosofia o virtual não se opõe ao real mas sim ao atual: virtualidade e atualidade são apenas dois modos diferentes da realidade.” [...] “o virtual encontra-se antes da concretização efetiva ou formal (a árvore está virtualmente presente no grão).”(LÉVY, 1999, p.47)
Lévy ainda acrescenta dizendo que “é virtual toda entidade “desterritorializada”, capaz de gerar manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela mesma presa a uma lugar ou tempo particular.”P.47
Para Bauman, extraterritorialidade seria esta nova noção espaço-temporal, onde o tempo é reduzido ao instantâneo e o espaço transcende as barreiras territoriais através do ciberespaço.
São discursos diferentes, talvez impossíveis de serem comparados ou justapostos.
Mas, poderia dizer que eu, como tutora, ou ainda, poderia dizer que as alunas do PEAD estão realizando sua formação (continuada e inicial) docente em um [não] lugar chamado Virtual (no sentido de Lévy)?
Não procurarei, a partir desta pergunta, respondê-la. Mas sim, articular alguns conceitos que, durante esta semana, aprendi.
Para Lévy, o virtual é real; mas não se pode fixá-lo em nenhuma coordenada espaço-temporal. Além disso, “o atual nunca é completamente predeterminado pelo virtual”[...]“O virtual é uma fonte indefinida de atualizações”p.48
Para Lévy, a “palavra” é virtual. Ou seja, não se pode determiná-la espaço-temporalmente, antes que esta seja atualizada [através da enunciação/pronúncia].
Desta forma, não se pode pensar no Virtual como aquilo que não está acontecendo; mas sim, aquilo que é real, e está acontecendo, constantemente, indefinidamente, imprevisivelmente. Não se pode predeterminar a atualização de uma virtualização.
Iremos a um exemplo: um hipertexto. É virtual no sentido que é real, e é atualizado independente das coordenadas espaço-temporais.
E o ciberespaço, para Lévy, caracteriza-se por ser um novo espaço universal que “dilata o campo de ação dos processos de virtualização”.p.50
Desta forma, o ciberespaço é o espaço virtual mais amplo e que, neste sentido, poderia caracterizar o meu [não] lugar profissional, assim como o [não] lugar de formação (inicial e continuada) das alunas do PEAD.
Um [não] lugar onde atualizações estão acontecendo. Um virtual real.

Bibliografia:
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
_________. O que é o virtual. São Paulo: Ed. 34, 1996.

Um comentário:

Simone Bicca Charczuk disse...

Oi Su, bem, vamos tentar (começar) a conversar sobre essas idéias. Lendo as tuas reflexões sobre o conceito de virtual para Levy, fiquei pensando que podemos entender o virtual também como uma potência (real) de atualização. É algo que pode se materializar na realidade, como potência de um vir-a-ser. Embora "a árvore esteja virtualmente presente no grão", penso que ela só poderá se atualizar na realidade quando certas condições assim o permitirem. Bom, foi a "piração" que consegui expressar nesse momento, vamos tentar dar seqüência a esse diálogo? Abração, Simone